Beleza Sustentável®

Trocar comida por bebida é compulsão

Publicado por: Beleza Sustentável ® em: 19 de janeiro de 2010

Se você é daquelas que acredita que pular alguma refeição ou praticar outra atividade em excesso, na tentativa de driblar a fome, ajuda a emagrecer, esqueça. Esse é um comportamento de risco

Não é por outro motivo que o provérbio popular que diz “no meio está a virtude” faz tanto sucesso há milhares de anos. Mesmo as atitudes mais saudáveis, como beber água, por exemplo, se forem exageradas, vão fazer mal à sua saúde. Quem resistiria a tomar dez litros de água por dia? Ou fazer exercícios em programas de 12 horas diárias… o que aconteceria? Isso vale para tudo. Inclusive quando o assunto é alimentação.

Comer de forma adequada e balanceada é fator primordial para manter a saúde em dia – e isso significa ficar bem longe de algumas doenças, afastar o risco de contrair outras tantas e ainda retardar o envelhecimento. Estudos mostram que uma alimentação saudável é capaz de reduzir o risco de males crônicos, como os cardiovasculares, diabetes, osteoporose, artrite, câncer e Alzheimer, entre outros.

Dessa lista faz parte, obviamente, a obesidade, que gera outras doenças e compromete não só o bem-estar físico, mas o psíquico, já que corrói a auto-estima. Para vencer esse problema, no entanto, não vale buscar soluções mirabolantes. Na ânsia de driblar a vontade de comer, muita gente acaba caindo na tentação de trocar o mastigar permanente por outras atividades. Sempre em excesso. Ou seja, abandona a compulsão pela comida e abraça outra causa.

“Parei de comer e só trabalhava: fiquei doente!”

Com o objetivo de vencer profissionalmente e ganhar dinheiro, muitas pessoas procuram mostrar sua competência de forma exagerada. O trabalho pode vir acompanhado da capacidade de roubar espaço de outros sentimentos mais difíceis de ser vivenciados. Na compulsão pelo trabalho, o ser humano exclui da própria vida as opções do lazer, as pausas nos fins de semana e o convívio descontraído com a família, entre outras. “Nesse caso, a pessoa exige dos outros o mesmo ritmo que escolheu para si. Conseqüentemente, critica demais, exige perfeição, dedicação e devoção de todos que a cercam. Enfim, quer que os outros se comportem igual a ela. O próprio compulsivo sofre com isso. Normalmente são pessoas severas, isoladas, inflexíveis, perfeccionistas, amargas e exageradamente realistas”, analisa a psicóloga Silvana Martani.

A publicitária S.C., de 37 anos, não se conformava com o sobrepeso adquirido ao longo dos anos e encontrou no trabalho uma forma de reprimir sua angústia: “Como não estava contente com minha posição na empresa, foquei meus esforços numa promoção em curto prazo. Comecei a trabalhar mais de 12 horas por dia e, a cada elogio, sentia-me vitoriosa e feliz. Minha saúde foi afetada por esse comportamento, pois deixei de fazer uma alimentação correta e tinha, todos os dias, dores de cabeça horríveis”. Apesar de tudo, Sara não emagrecia. “Quando conquistei a promoção, decidi mudar minha rotina e passei a trabalhar menos, apesar das responsabilidades. Nesse momento, minha saúde física e mental era mais importante. Com a ajuda de um nutricionista, passei a comer direito e, com o apoio famíliar, retomei o prazer pela vida.”

Mas o que é, afinal, compulsão? É um hábito que traz alguma gratificação emocional, normalmente um alívio de ansiedade ou angústia, mas que não oferece bem-estar mental pleno, nem conforto físico, nem adaptação social. A compulsão se caracteriza por se apresentar de forma freqüente e excessiva. Segundo a psicóloga, especialista em obesidade do Hospital Beneficência Portuguesa, Silvana Martani, o prazer ou alívio trazido por qualquer prática induz à repetição. E é aí que mora o perigo. Com o tempo, a pessoa fica com uma sensação negativa, de culpa, por não ter resistido ao impulso.

Se você está na fase de trocar o prazer da comida por outro, qualquer que seja ele, cuidado. É possível que resolva um problema antigo e adquira um novo. Sabe aquela história de quem abandona o cigarro e engorda, porque fica comendo bombons sem parar? Isso se repete em quem abraça uma dieta e resolve, para compensar, divertir- se numa mesa de jogo 24 horas por dia. Conheça, a seguir, as principais compulsões e descubra como se manter longe delas!

Atitudes pró-saúde

Se você não pretende entrar no jogo da compensação – que só traz derrotas –, o primeiro passo é perceber que o seu problema com a comida precisa ser resolvido e não trocado por outro.

Comece a prestar atenção em tudo o que ingere, promovendo uma espécie de reeducação alimentar.
Ao contrário do que se pensa, ela não é um regime, mas sim a adoção de um plano de alimentação saudável, adequado às necessidades individuais.

“As mudanças não acontecem de um dia para o outro, são graduais. Não há sofrimento, mas ganho de saúde e disposição”, garante a nutricionista Mariana
Del Bosco, de São Paulo, consultora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade.

Com o apoio de profissionais especializados – endocrinologistas ou nutricionistas – há maior garantia de sucesso, mas você pode adotar, aos poucos, mudanças no cardápio que vão fazer toda a diferença.

Consuma seis refeições diárias, sendo três maiores – café da manhã, almoço e jantar – e três menores – lanche da manhã, lanche da tarde e ceia. “Elas têm a função de quebrar o jejum e, portanto, são de pequeno volume”, diz a nutricionista Mariana Del Bosco.

“Ao distribuir as refeições, regulamos o metabolismo e garantimos energia e nutrientes no momento correto da necessidade de cada órgão, além de evitar que fiquemos muitas horas sem nada no estômago, o que leva à compulsão assim que tivermos chance.

Nunca use a comida como válvula de escape, seja de forma negativa – aliviar um dia estressante, superar uma briga com alguém –, seja de forma positiva, como comemorar alguma conquista ou festejar algo com as pessoas queridas.
Com o domínio do seu apetite, comer tudo o que se gosta, mas sem exageros, é viável, sim”, garante a especialista.

“Comprei meio shopping para fechar a boca”

O comprador compulsivo é praticamente um dependente do ato de trocar seu dinheiro por qualquer objeto, pois acaba por consumir apenas pelo fato em si e não pela necessidade. Ir ao shopping sem comprar é quase impossível. A dona-de-casa Júlia Mendes, de 32 anos, se encaixava nesse perfil. “Sempre tive uma vida financeira confortável, deixei de trabalhar quando casei e engordei 12 quilos, pois beliscava o dia inteiro. Fazer compras preenchia o tempo livre e, apesar de muitas vezes gastar um valor exorbitante e me sentir culpada, não conseguia vencer esse vício”, confessa.

O comprador compulsivo é praticamente um dependente do ato de trocar seu dinheiro por qualquer objeto, pois acaba por consumir apenas pelo fato em si e não pela necessidade. Ir ao shopping sem comprar é quase impossível. A dona-de-casa Júlia Mendes, de 32 anos, se encaixava nesse perfil. “Sempre tive uma vida financeira confortável, deixei de trabalhar quando casei e engordei 12 quilos, pois beliscava o dia inteiro. Fazer compras preenchia o tempo livre e, apesar de muitas vezes gastar um valor exorbitante e me sentir culpada, não conseguia vencer esse vício”, confessa.

“Os hábitos de consumo são mais emocionais que racionais”, afirma Dílson Gabriel dos Santos, que leciona Comportamento do Consumidor na Universidade de São Paulo (USP). Ele esclarece que comprar por compulsão é satisfazer uma atração instantânea pelo produto, seja por causa da embalagem, do preço ou do apelo publicitário. Para ele, é importante enfrentar o distúrbio com auxílio médico, como fez Júlia: “Matriculei-me na ioga, sou voluntária em uma creche e cuido da minha casa e do bem-estar da família. Procurei outras atividades para me livrar da compulsão pelas compras”

“Cigarros e álcool em vez de comida saudável”

“Vivemos uma época na qual as compulsões são mais conhecidas. Os estímulos socioculturais para alguém se tornar compulsivo também aumentaram e isso acontece principalmente quando não há respaldo familiar”. A opinião é do psiquiatra, do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo, Eliseu Labigalini Júnior. Para o médico, fumar e beber estão entre os principais vícios desenvolvidos, pelo menos, nas duas últimas décadas.

A auxiliar de enfermagem L.C., de 25 anos, passou recentemente pela experiência da compulsão. “Comecei a fumar aos 15 anos e sempre fui muito tímida, por isso durante toda a minha vida construí poucas amizades e tive menos namorados, pois me sentia feia e gorda. Logo tive meu primeiro emprego e passei a beber muito também. Com isso, os problemas começaram a aparecer. Trabalhava durante o dia e fumava de um a dois maços de cigarro diariamente.

Depois ia para casa e bebia muito. Já não tinha disposição para nada e comer era a última coisa que lembrava de fazer”. Leila foi demitida por justa causa: excesso de bebida. “Nesse momento, decidi mudar de vida. Participei de terapias em grupo e procurei apoio familiar. A batalha é difícil, pois até hoje continuo na luta. Apesar das dificuldades, reconquistei minhaauto-estima, arranjei um novo emprego e até tenho um namorado”, diz. “A cura desse tipo de compulsão é paulatina e depende do esforço de quem deseja, mesmo, livrar-se desses vícios”, pondera o psiquiatra Eliseu Labigalini Júnior.

O bem de comer bem

Segundo dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde, no Brasil as doenças degenerativas são responsáveis por 72% de todas as mortes, causando um prejuízo anual de 3 bilhões de dólares. Outra revelação mostra que pelo menos 80% das mortes por problemas cardíacos, diabetes e derrames e 40% dos óbitos por câncer poderiam ser prevenidos com dietas saudáveis. “A boa alimentação nos mantém mais alertas e inteligentes, porque melhora o aprendizado, a memória, a velocidade de raciocínio e cognição”, garante a nutricionista T. R., da RG Nutri de São Paulo, na Capital.

“Troquei a comida pelo pano verde!”
Dedicar-se demais ao jogo perturba as atividades pessoais, familiares e ocupacionais. A empresária B.L., de 36 anos, lembra de ter vivido um período em que jogar tinha mais importância, para ela, do que comer:

“Foi uma fase triste. Eu estava insatisfeita pessoal e profissionalmente, sem contar com os vários quilos a mais que me acompanhavam desde a adolescência. Achei, então, que o jogo poderia funcionar como uma distração. Marcava com as amigas, ficava jogando até tarde da noite e muitas vezes deixava de comer. O resultado dessa rotina de três meses é que emagreci cinco quilos, mas ganhei uma anemia, além de ter jogado também minha auto-estima lá embaixo”.

A história de B. só não teve um final tão ruim porque ela logo tratou de procurar ajuda médica. “Jogar pode se tornar a única forma de prazer para algumas pessoas. O jogador compulsivo costuma ser inconseqüente, gastando o que não tem, perdendo a noção de realidade. Procurar apoio médico, de amigos e parentes ajuda a perceber o vício e vencer os problemas”, orienta a psicóloga Silvana Martani.

“Percebi que estava viciada em jogo e nada me interessava a não ser ganhar, ganhar e ganhar. Resolvi então procurar um psiquiatra e comecei um tratamento. Hoje posso dizer que sou feliz, pois ganhei um novo emprego, mantive meu peso atual e abandonei o pano verde.”

Matéria de Paula Marinho

 

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